November 26, 2009

MOCHILA NA EUROPA

Classe média - que odeia classe média - faz isso como uma espécie de rito de passagem. Isso, claro, quando é de uma categoria mais abastada. Alguns, é verdade, no máximo enchem a cara na Ilha do Mel ou vão pra São Tomé das Letras fumar maconha e cantar as bobagens do Raul Seixas.

Depois da valorização do Real e consecutiva desvalorização da moeda argentina, também ficou fácil viajar para Buenos Aires - a “Porto Seguro da nossa década”. E assim a classe média que odeia a classe média finge que respira cultura, mas na verdade aproveita para visitar feirinhas e passar no freeshop para comprar bléquilêibôu (ou rédi, coitados).

Voltemos à Europa.

Nada mais classe média odiosa da classe média que o “passeio de mochila”, dormindo em pensões pulguentas e banheiros divididos com estranhos. Um péssimo negócio, é claro. Viagem ridícula, mal feita, aproveitada de forma patética. Nem com 18 anos vale a pena.

Porque bom mesmo é dormir em cama limpa de hotelzinho confortável, ter um banheiro para chamar de seu - mas APENAS seu -, fazer traslados sem dor de cabeça e conhecer lugares bacanas sem precisar dar cotovelada a três-por-quatro. Mas como quem faz isso costuma ser a classe média, o odiador dessa classe, ainda mirim, faz “diferente”.

A base disso é o catolicismo, a religião da classe média: impõe o sofrimento como forma de virtude.

No fundo, essa molecada rebelde age como os pais e os avós. Pensam que são revolucionários, mas unicamente perdem a chance de fazer uma viagem melhor. E são tipicamente de classe média. Mochila nas costas, pensãozinha suja, cerveja em copo de plástico, mas cartão VISA e telefone do papi pra qualquer eventualidade.